Sobre esperanças
de esperar e de esperançar.
Eu tenho algumas coisas pra falar sobre esperança. Elas parecem desconexas, mas eu juro que elas se conectam no meu coração. Eu acho que vocês conseguem ligar os pontos também.
Durante o caminho até Campinas, sentou do meu lado um moço que não parava de falar por nada. Acho que ele tinha medo de ônibus pq no pouco tempo que ele me deixou trabalhar ele ficava o tempo todo falando sozinho “meu Jesus”, “por Deus” etc. Acontece que o cara alugou um triplex na minha cabeça.
Eu supus que como ele tava com medo o jeito dele lidar era ficar falando sem parar. Daí que eu não tava super falante, mas tava ouvindo atenta né. Primeiro ele veio contando que era um mecânico de máquina agrícola. Que tava trabalhando há mais de dez anos no mesmo lugar e agora tava de férias.
Mas não era qualquer férias. Era férias de seis meses. Depois de muitos anos trabalhando 6x1, sem férias, o patrão dele - um homem muito bom - tinha dado 6 meses de férias. Daí ele estava viajando. Vivendo uma aventura.
Disse que é de Araras. Tava voltando pra casa agora. Ficou fora sei lá quantos meses e dezessete dias. Dezessete dias bem marcados e contados pelo visto.
Me contou que o patrão era muito bom, que era pobre e subiu na vida. Que faz festa de final de ano pros funcionários e pra família. Que dá bônus nas datas festivas. Que confia muito nele.
Me contou também que combinou com a namorada que se ela fosse fiel enquanto ele viajava, ele casava com ela. Mas estava com medo de chegar em casa e apanhar dela, ia chegar de madrugada. Melhor chegar de tarde né? A namorada é enfermeira. Uma mulher muito boa
Ele conheceu a namorada nova depois de cansar da antiga, que só queria saber de cheirar e beber. Ele fez tudo por ela. Era apaixonado por ela. Mas não adiantou. Ela não queria se tratar. Ele queria que ela fosse pra clínica, mas ela não quis. Ficou 7 anos com ela. Até que chegou no limite.
Daí conheceu essa moça nova. Bonita. Boa. Não fuma, não bebe, e nunca se drogou. Agora ele vai ser feliz.
Mas falou muito da outra. A ex que fez com que ele comprasse uma casa. Que vendia as coisas tudo pra cheirar. Que ficava três dias fora de casa. Que as vezes parava, mas a abstinência batia forte e ela não aguentava. Mas não queria ir pra clínica.
Mas agora ele tava voltando das férias. Ia pedir a moça atual em casamento. Nem ia pra casa dele. Ia chegar direto para casa dela. Pedir a mão dela pra avó. Se ela foi fiel durante esses meses e dezessete dias, então já iam pro cartório e pra igreja!
Toda bagagem dele era um saco plástico cinza. Tinha uns papéis dentro. Um cheque que ele pediu para que eu confirmasse qual o valor porque achou que ele tinha preenchido errado. Disse ele que deixou tudo com a moça. O cartão de crédito. Tudo. Só saiu com um talão de cheques.
Na sacola tinha uns papéis, esse cheque, um punhado de dinheiro, dois potinhos de remédio. A roupa do corpo e essa sacola.
Eu tenho minhas suspeitas de como foram as férias dele e de como algumas das histórias talvez se desenrolaram de verdade, diferente da versão que ele contou. Mas tô fazendo o exercício de pensar que eu tô errada. Que ele tava vivendo a aventura de uma vida, do jeito que ele queria.
tava aqui pensando no homem. ele tava preocupado em chegar (as nove da noite) e achar um banco pra conseguir trocar o cheque dele, e daí comprar passagem pra Araras. Será que ele conseguiu?
Eu sei que trocar o cheque, as nove da noite, pode ser meio complicado né. Também tinha a opção do dinheiro que ele tinha em espécie servir pra comprar a passagem.
Será que ele conseguiu chegar em casa? Será que a moça foi pedida em casamento? Será que ele teve medo no caminho ou ficou conversando com outra moça completamente doida tipo eu?
Este era pra ter sido um ano de muitas mudanças e viradas na minha vida. Mas o universo quis que isso ficasse pra 2026. Sei que em determinado momento (ontem) me vi em situação de esperando três grandes respostas que prometiam. Se não grandes mudanças, grandes validações.
Uma resposta me validaria como comunicadora. Outra como divulgadora científica. (ainda que exista uma sobreposição entre essas coisas que parecem sinônimos eu consigo separar bem esses dois pontos e vou deixar para vocês apenas o mistério).
A terceira…a terceira eu não sei. Talvez me validasse como cientista. Talvez como profissional multidisciplinar. Talvez apenas como uma pessoa com sorte. Essa terceira resposta, ainda que eu soubesse o quanto era importante, não me despertou grandes reflexões. Eu não tinha esperança nela.
Nenhuma esperança.
Nenhuminha.
Eu tinha algum desejo que desse certo. Mas eu tava tão convencida que não daria que só tentei porque tinha feito compromisso com alguém. Juro. Eu por mim não tinha nem tentado. Tanto que tiveram que insistir pra eu não desistir. Tentei né.
Ia ser massa se desse certo. Às vezes me pegava pensando “nossa, seria bom demais se rolasse”, mas eu não chamo isso de esperança. Porque eu mesmo não tava esperando conseguir. Eu só queria que fosse possível. Mas eu sabia que não era.
Pois então.
Não fui validada como comunicadora.
Não fui validada como divulgadora científica.
Fui validada como uma enorme sortuda que consegue coisas que não parecem possíveis.
Eu não tinha esperança e rolou.
Hoje eu apresentei uma palestra. Fiquei orgulhosa do título então vou contar pra vocês: Inteligência Artificial é Burrice Ambiental? Falei sobre como a IA, assim, amplamente, pode ser usada de forma responsável para aplicações específicas e importantes no contexto de mudanças climáticas. Também falei sobre como a IA — especialmente a generativa — pode ser uma dessas coisas que trazem muito mais prejuízo que benefícios (e que precisamos entender e subverter isso).
Correu tudo bem, acho. Não esqueci muitos tópicos (embora tenha esquecido todos os números) e acho que cobri tudo que pretendia, o que resultou numa palestra ok. O destaque foi para a rodada de perguntas. Os jovens engajaram e fizeram várias perguntas pertinentes. Em uma das respostas falei sobre não ser muito otimista em determinado contexto (confesso que não lembro muito sobre o que era, mas suspeito que era sobre construirmos regulamentação e ferramentas de monitoramento e fiscalização na velocidade que a tecnologia muda). Um mocinho me perguntou sobre o que eu acredito que pode ser feito para mudar — se é que eu acredito em algo.
Minha resposta é que eu acredito que quando a água bate na bunda a gente começa a se mexer. Eu acredito no poder da catástrofe. Mas acima disso eu acredito muito no poder da educação.
Por onde andei
Olha gente… eu andei por muitos lugares desde a última vez que apareci. E minha esperança, agora, é não voltar para o substack — ter tempo para mudar de serviço de newsletter para uma menos nazista problemática, digamos assim.
Mas até isso se resolver eu to por aí e por aqui.
Queria só fazer duas propagandas.
Estou com um financiamento coletivo para fazer um áudiolivro de um livro muito muito muito legal da Paula Gomes. Colabore se puder :)
O tortinha de climão agora tem uma lojinha. vc pode comprar brusinhas, ecobags e canecas.
Fiquem bem.


